Caminhar e contemplar

O silêncio na obra de Richard Long é frequentemente associado à sua prática de caminhar solitariamente em paisagens remotas, onde o ato artístico não reside apenas no registro visual (fotografia ou mapa), mas na experiência imersiva e silenciosa com a natureza.

O artista trabalha com gestos mínimos na natureza : caminhar, alinhar pedras, traçar círculos ou linhas no chão..

Silence Circle - 1988

Long propõe uma arte efêmera que apela a memória de um lugar a partir de objetos e materiais retiradas deste habitat natural, num diálogo com o território.

Seu caminhar se transforma em escultura. O silêncio é a trilha sonora da obra, onde o esforço físico e a solidão são componentes invisíveis da arte final.

Para o artista, um círculo feito de pedras não é apenas uma forma geométrica. A intervenção funciona como uma presença mínima que altera a percepção do lugar. A obra não é um objeto final mas um processo vivido, que propõe um encontro.

Richard Long começou as suas caminhadas em 1967 sendo uma referência do movimento da Land Art na Inglaterra, seu trabalho surge dos deslocamentos que faz e dos elementos que transporta. O artista explica:

« penso que meu trabalho explora um rico território, em algum lugar entre o Land Art, os monumentos, as enormes máquinas, e, no extremo oposto, a postura que consiste em não deixar (na paisagem) nenhuma marca de sua passagem. »

Na repetição dos gestos ele tateia a paisagem delicadamente convidando os elementos naturais como parceiros no processo criativo., entendendo o efêmero da sua presença. Um ritual solitário e uma brincadeira fantástica :

« Minhas pedras são como grãos de areia no espaço da paisagem. »

« as pedras podem ser usadas como marcadores do tempo e da distância, ou existir como parte de uma imensa escultura, ainda que anônima. »

Esta busca essencial de se encontrar numa terra território faz do caminhar do artista uma expressão contemplativa, onde o gesto encontra sua medida na extensão do horizonte natural.

Richard Long fez seus estudos no St Martins College of Art and Design à Londres, lugar considerado pelo crítico americano Clement Greenberg como o centro da produção de vanguarda do momento, os anos 60, onde se produziram mudanças radicais nas idéias, sobretudo na Grã-Bretanha, confrontada a uma passagem que poderíamos definir como pós-industrial e pós-colonial. In Richard Long, Heaven and Earth, "Making tracks", texto de Clarrie Wallis, London, Tate, 2009, p. 33-39

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