Keleman e o mar criativo
Stanley Keleman foi um pesquisador da educação somático- emocional. Seu trabalho é riquíssimo e o livro Anatomia emocional teve grande impacto nas sinergias e relações dos sentimentos na configuração corporal. Criou toda uma metodologia cujo foco é aprender a usar o córtex e os músculos para gerar voluntariamente experiências para crescer e criar uma habilidade pessoal para administrar a própria vida, à sua maneira.
Em nossos estudos sobre os processos de criação as questões da corpo sempre estiveram presentes.
Como o corpo reage e contribui para os momentos de grande intensidade cognitiva que a criação provoca ?
No seu livro Realidade Somática , Keleman traz sua compreensão das transições corporais ao longo da vida, quando adquirimos um novo conjunto de hábitos corporais . Chama estes estágios de endings, middle ground e estágio de formação.
Explica que:
“As transições são atos de imaginação e formação de imagens. São atos de liberdade, individualidade e auto-regulação que podem ensinar a participação nas mudanças do corpo.
Elas falam de nossa capacidade de resposta e de nossa sensibilidade a novos padrões, formatos e formas.”
O pesquisador fala do middle ground como uma oportunidade de acesso ao mar criativo, uma espécie de estado onírico acordado na qual o tempo não é ordenado e a pessoa se abre para o que ainda não tem forma. Neste fogo da excitação, que o processo criativo gera é necessário a sustentação de uma pausa, sem respostas imediatas na qual a pessoa precisa sustentar uma dissolução dos padrões estruturados que tinha.
Keleman em sua experiência clínica narra que muitas pessoa temem os "middle grounds” , elas se sentem inseguras, tristes ,ansiosas zangadas nesta abertura sem uma resposta definida e muitas vezes para lidar com estas emoções tentam liberar sua energia através do excesso de alimentos, da bebida ou do sexo.
No processo de transição somática muitas vezes as pessoas adoecem por não conseguirem reorganizar seus sentimentos frente as mudanças, criando novos comportamentos . Quando resistimos aos endings geramos, segundo Keleman, distresse.
Quando permitimos a mudança abrimos a possibilidade para o middle ground e consequentemente a abertura para o novo e o mergulho num caldo criativo que dá origem a novas formas de existência e sociabilidade.
“nesse espaço intermediário, o que pede passagem em nós é o que habitualmente chamamos de louco,ilógico, inaceitável, irracional, fora de sequência e inesperado”
É importante estar atento a estes momentos e buscar a pausa para viver as mudanças . No processo artístico temos nesta jornada a companhia dos materiais e das linguagens da arte que nos auxiliam e apoiam na caminhada.