Afinidades eletivas

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Andrè Masson, Goethe e la metamorfosi delle piante

André Masson titled "Goethe and the Metamorphosis of Plants" (1940)

Goethe acreditava que arte e ciência eram expressões da mesma intuição da natureza: desta maneira é interessante entender, como na sua fenomenologia, seus romances dialogam com as suas pesquisas científicas .

Este é o caso do romance Afinidades Eletivas (1809) e a sua teoria morfológica em A metamorfose das plantas. Na botânica e na química goetheana: certos elementos têm afinidades naturais, quando colocados em relação, reorganizam o sistema inteiro.

Afinidades Eletivas é um romance que explora como relações humanas parecem seguir uma espécie de “atração química”: personagens se unem e se separam como elementos reagem em um laboratório. Goethe usa essa metáfora científica, inspirada pela química do século XIX para pensar sobre amor, casamento, desejo, responsabilidade e liberdade.

A metamorfose é um conceito chave em seus estudos.

“é a expressão de todos os graus de transitividade, da interação das polaridades que geram dinâmicas de preponderâncias dos polos, da gradação entre os extremos quando se trata do contínuo, da transcendência a novos níveis além dos extremos quando se trata do descontinuo.” Jonas Bach

As qualidades de um fenômeno não se deixam reduzir por esquemas explicativos. A observação acurada dos processos das plantas nos ensinam a ver o fluxo contínuo da vida e também nos levam a contemplar seus mistérios.

Walter Benjamim, filósofo em sua leitura atenta do romance, faz uma defesa da beleza em si e de um olhar que não busca explicações reducionistas:

“Pois a aparência pertence ao essencialmente belo enquanto envoltório, e o fato de que a beleza como tal só apareça naquilo que está velado mostra-se como sua lei essencial.Portanto, a própria beleza não é, como ensinam os filosofemas, mera aparência [...]

A beleza não é aparência, não é envoltório para encobrir outra coisa. Ela mesma não é aparência, mas sim inteiramente essência – uma essência, porém, que se mantém, em impregnação essencial, idêntica a si mesma apenas sob velamento. Por isso, pode ser que a aparência iluda por toda parte: a bela aparência é o envoltório lançado sobre aquilo que é necessariamente o mais velado”

Isabelle Stengers pode ser considerada uma defensora desta ciência não mecanicista, onde afinidades, relações e processos substituem causas lineares e geram uma presença do pesquisador no contexto investigado. Goethe, para ela, não buscava explicar a natureza, mas aprender a pensar com ela, sem violentar aquilo que ela faz existir.

Isabelle nos convoca a uma ecologia das práticas, retomando este demorado olhar que sabe que as coisas não existem isoladamente, mas dependem umas das outras e de seu meio para operar. Convida como Goethe a uma participação ativa do pesquisador, buscando a "forma viva" (Gestalt) e não apenas a fragmentação quantitativa.

É uma consciência que se repete mas que teimamos em não escutar.

"Todos estamos atados numa teia inescapável de mutualidade, entrelaçados por um único tecido do destino. O que quer que atinja a um diretamente, atinge a todos indiretamente” – Martin Luther King.

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