Em busca do silêncio
Mapa do Vale do Silêncio desenhado no filme Namdev Bhau : in search of silence
Vivemos em busca do silêncio mas será que a quietude é realmente um lugar onde tudo acontece da forma que imaginamos ?
No mundo atual o sossego é uma condição rara, vivemos atordoados pelos barulhos externos (poluição sonora) e pelas inquietudes internas ( ansiedades e medos). No filme da cineasta Dar Gai , roteirista e produtora ucraniana radicada em Mumbai, na Índia acompanhamos o protagonista Namdev Bhau em sua peregrinação ao Vale do Silêncio.
Cansado da sua vida tanto pessoal como no trabalho, Namdev vive mudo pois percebe que ninguém quer realmente escuta-lo.
Se você não assistiu o filme, deixo aqui o link do Youtube e recomendo que só continue a leitura após ver o filme, pois as minhas meditações podem tirar a surpresa da narrativa. As obras de arte são polissêmicas e existem muitas formas de entendimento, vou apenas pontuar algumas afecções que o filme me causou.
Na jornada de Namdev sentimos sua impaciência e irritabilidade . Ele quer chegar ao seu destino sem distrações e as pessoas que tentam estabelecer uma relação com ele são evitadas ou mesmo rechaçadas. É somente a insistência enérgica de uma garoto, Aaliq que vai rompendo aos poucos a escolha do seu isolamento afetivo.
Ao chegar ao tão sonhado vale, depois de tantas caminhadas e privações, o protagonista decepciona-se ao encontrar uma excursão barulhenta de estudantes no local. A frustração que o abate, traz o gosto de que o seu sonho, ficar em paz é uma impossibilidade.
O interessante é que, só quando ele desiste de sua busca individual é que é capaz de olhar para o seu companheiro nesta viagem - que o acompanha no intuito de chegar ao seu castelo vermelho - um monastério budista que fica no vale.
Nesta virada, através de uma notícia num bar que Namdev recebe ao tomar seu chá é que se descortina a verdadeira jornada de Aaliq. Descobrimos que o seu mapa e jornada foram desenhados para uma situação de emergência e que em caso da morte dos seus pais, de forma lúdica eles criaram uma rota de fuga para o filho com tarefas que proporcionam um roteiro seguro.
Os assassinatos de casais de castas diferentes na Índia, frequentemente chamados de "crimes de honra", são cometidos por familiares que consideram uniões intercastas uma violação das tradições sociais e religiosas. O sistema de castas indiano ainda exerce forte influência na escolha de parceiros, gerando atos extremos de violência. Este é o caso de Aaliq e seu mapa e viagem são um modo de ser protegido de um destino trágico.
A compreensão da situação faz Namdev entrar no processo imaginário de Aaliq e abre no filme o valor da compaixão.
A essência da compaixão é que alguém “sofre com” ou, em um sentido mais amplo, “sente com” outra pessoa. Isso significa que não olhamos para a pessoa de fora – a pessoa sendo o “objeto” de meu interesse ou preocupação – mas que nos colocamos dentro da outra pessoa. Este giro afetivo nos permite uma ampliação e gradação dos nossos sentimentos e faz com que o silêncio ganhe uma textura interior dando nuances aos nossos desencantos na medida de outras vidas possíveis.
Ao encontrar o monge budista e deixar Aaliq aos cuidados dele vemos que a peregrinação de Namdev não foi em vão.
A busca pelo silêncio fica mais profunda ao escutar o monge dizer que esta é também a busca dele, pois não se trata de um lugar físico mas um estado interior, ou como diz o ensinamento budista:
"O amor e a compaixão são necessidades, não luxos. Sem eles a Humanidade não pode sobreviver."
Uma questão importante é que esta capacidade de viver com: conviver, precisa ser praticada, é fundamental termos espaços presenciais para partilhar nosso caminho com um outro que nos quer bem.
E você o que encontrou no filme que te tocou ?
Acompanhe as nossas pesquisas sobre o Silêncio aqui no blog e no podcast.
Recomendo ouvir o último episódio sobre Retiros de silêncio :
https://open.spotify.com/episode/3k6cSoFXRGQVMN4hGzG3BI?si=GKvNRRQRTDKjGTw0jwDrIg